segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Quanto ao futuro,

Consideração sobre a virada de ano:
Que 2011 seja o ano mais longo da minha vida.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Quanto a um presente,

Eu alto
Ela, às vezes, pequena
Eu magro
Ela magricela também

Eu digo o preto no branco
E ela: depende
Pode, ou não, ser diferente
Ela me entende

Eu digo: somos grandes filósofos
Que morremos no século passado
Somos o cravo e a rosa
Seremos a terra e o arado

Ela diz: hoje sou o que tenho sido
Desde o ano passado
Amanhã me verei diferente
Estando, ou não, ao teu lado

Eu absoluto
Ela relativa
Eu de luto
Ela hiperativa
Eu resoluto
Ela inspirativa
Eu escorbuto
Ela vitamina

Eu absolutamente relativo
Ela relativamente absoluta
Os dois independentemente ligados
De forma incrivelmente realizável

Taciano S. Zimmermann

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Quanto ao calado,

"[...] E assim, em vez da bela liberdade, da solidão e da música, a triste alma tem mesmo é que se debater nos cuidados, vigiar e amar, e acompanhar medrosa e impotente a loucura geral, o suicídio geral. E adular o público e os amigos e mentir sempre que for preciso e jamais se dedicar a si própria e aos seus desejos secretos. [...]"

Fragmento de Talvez o último desejo, de Rachel de Queiroz

sábado, 4 de setembro de 2010

Quanto a fases,

Lua adversa

Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia.
o outro desapareceu...

Cecília Meireles

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Quanto à formação literária,

Coletânea de frases soltas roubadas

E avança no livro como quem escapa do mundo por um túnel secreto.
Como quem desaba, não como quem acorda. Para fugir do terrível acaso que nos define.

É por si só mais um passo demonstrativo da vida em direção à profunda indiferença de todas as coisas. Essa algaravia monumental em toda parte, todos falando tudo a todo instante, esse horror coletivo ao silêncio.

Todas as pessoas estão no limite, permanentemente no limite de si mesmas.

No bar, a filosofia e a risada, o brinde da cerveja: somos todos reiteráveis!
Ali, era enfim a sensação de um tempo parado, suspenso.

E uma boa sensação de gravidade lhe tomava os gestos ressaqueados de uma espécie de renascimento. Ou de deslocamento definitivo, permanente, inelutável.
Era preciso que a "verdade" saísse da retórica e se transformasse em inquietação permanente, uma breve utopia, um brilho nos olhos. A ideia do sublime não basta, com ela chegamos só ao simulacro.

Naqueles tempo tolerantes, como quem, prosaicamente, apeas perde um privilégio, o da liberdade. Por uma sucessão inextricável de acasos...

Dá meia-volta, pega outra rua, e outra, mas todas não levam a lugar nenhum.

Relaxe; o tempo está escorrendo.

Ponha o pé num avião, ele concluiu - e desaparecemos.
E desapareceu por onde veio.

Vire-se. É a sua vez de jogar.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Quanto a um conto,

A Princesa Hindu

"Me pega", a menina de súbito dizia, tentando surpreender o companheiro, e pulava do alto da escada que um pau mantinha erguida sob a supervisão do menino. Este, fingindo-se tomado pelo susto, de pronto agarrava-a ainda no ar, logo que ela se deixasse desprender do último degrau, e rindo colocava-a no chão. E assim podiam passar horas e horas do dia, entretendo-se com o que tinham. Era pouco ou quase nada. Filhos da terra, não possuíam brinquedos, somente tinham a imaginação e a companhia um do outro.
Criaram-se juntos, filhos de pais compadres, vizinhos na roça. Ela era a mentora das brincadeiras, estava sempre certa, mandava e desmandava. O menino obedecia, era seu cúmplice fiel e zeloso a acompanhava aonde fosse. "Eu sou a princesa e você é meu servo", ela dizia. Juntos criaram um reino hindu, onde os cavalos viravam elefantes, os casebres viravam palácios e o riacho era, na verdade, lágrimas vertidas de uma deusa virgem. Nesse reino nada faltava.
No entanto, a realidade era outra. Era tempo de seca e a comida já começava a rarear. As duas crianças, sob o sol forte, eram agora exploradores do deserto. A menina, empunhando uma sombrinha, dizia ser a chefe da missão. "Mas você já é a princesa", o menino protestou. "Por isso mesmo", ela retrucava e continuava com a cena, "agora eu digo que temos que subir aquelas dunas, pode ser que encontremos água". Subiu a escada, com sombrinha e tudo. O menino tentava acompanhá-la com o olhar, seu estômago doía raso e, ao olhar em direção a ela, o sol ofuscava-lhe a visão. Os olhos ardiam como se queimassem. "Me pega", ela disse, e confiante no companheiro pulou.
Caída no chão, imóvel e inconsciente, a menina ainda respirava. Quanto a ele, a cor fugiu da face, o coração subiu à boca, não ousava respirar. Correu, em pânico, buscando por ajuda. Atravessou o riacho das lágrimas vertidas, montou no seu elefante, buscou socorro no palácio. Mas todos estavam na roça e não ouviram as suas súplicas. Enquanto isso, a princesa hindu já ia ao encontro dos seus. Foi para o seu reino hindu, onde sua tribo a esperava. Lá onde agora somente uma coisa faltava: a companhia do seu fiel servo.
Thatiane C. Pires

domingo, 28 de março de 2010

Quanto a um conto,

Entre súplicas mal disfarçadas, ela aguardava a sua vez desejando, porém, que nunca chegasse. Se lhe perguntassem o que ela estava esperando, diria: a morte. E falaria isso com ares de veterana, cujo corpo já sentira outras duas vezes o fim da vida e que, sem escrúpulos, ousava continuar vivendo. Desta vez, no entanto, seus olhos traíram-na. Seus antigos cúmplices agora revelavam medo, reflexo do que ela no íntimo sentia. Um sentimento de impotência diante da situação que vivia.
A sala de espera ainda era a mesma e a garota se via sentada no mesmo estofado de mau gosto azul marinho com flores amarelas. Na porta do estabelecimento não havia qualquer identificação. Todas as que ali entravam o faziam sem anunciar, sequer encaravam as outras da sala ou levantavam os olhos. A música ambiente não bastava para dissimular o clima tenso e mal disfarçava os gemidos e às vezes gritos vindos lá de dentro.
Era a terceira vez que a garota recorria aos serviços da Vó Lélia, dona do lugar. O primeiro aborto, aos 12 anos, fora um procedimento tranquilo, incomum para a idade, o que de certa forma a deixou confiante, a ponto de não hesitar ao tirar a segunda gravidez, aos 15 anos. Não podia ignorar, porém, o quanto a morte pesava dentro de si e como o tempo morria em sua vida. Seus 17 anos tinham agora cheiro de 30, de tão repletos que estavam de problemas.
"Você", Vó Lélia disse apontando a garota. Entraram no outro cômodo, aquele de onde os gemidos vinham. A senhora reconheceu a pequena. "Faz o que... dois anos?", Vó Lélia perguntou e a garota fez que sim. Depois, com má vontade, a velha indagou se era necessário repetir as instruções quanto ao procedimento. "Por favor", disse a garota nervosa, instruções nunca eram demais, aprendera isso da pior maneira. "Fique tranquila, não há nada novo para você", a mais velha acrescentou ao ver a já rara cor sumir por completo da face da coitada.
Por que estava fazendo isso? Procurou argumentos, mas nenhum lhe pareceu suficiente no momento. Iam começar a intervenção, a menina pôs-se a gritar. E podia jurar que junto ao seu grito de medo e de dor berrava o seu ventre. Viu-se incapaz de tomar qualquer decisão, um sentimento já bem conhecido por ela: a mesma impotência que a impedia de mandar na própria vida. Desistiu. Ainda era tempo, seu ventre estava intacto. Pela primeira vez, iria sentir a vida. Iria nascer do próprio parto.
Thatiane C. Pires