"[...] E assim, em vez da bela liberdade, da solidão e da música, a triste alma tem mesmo é que se debater nos cuidados, vigiar e amar, e acompanhar medrosa e impotente a loucura geral, o suicídio geral. E adular o público e os amigos e mentir sempre que for preciso e jamais se dedicar a si própria e aos seus desejos secretos. [...]"
Fragmento de Talvez o último desejo, de Rachel de Queiroz
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
sábado, 4 de setembro de 2010
Quanto a fases,
Lua adversa
Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.
Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.
E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia.
o outro desapareceu...
Cecília Meireles
Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.
Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.
E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia.
o outro desapareceu...
Cecília Meireles
quarta-feira, 14 de julho de 2010
Quanto à formação literária,
Coletânea de frases soltas roubadas
E avança no livro como quem escapa do mundo por um túnel secreto.
Como quem desaba, não como quem acorda. Para fugir do terrível acaso que nos define.
É por si só mais um passo demonstrativo da vida em direção à profunda indiferença de todas as coisas. Essa algaravia monumental em toda parte, todos falando tudo a todo instante, esse horror coletivo ao silêncio.
Todas as pessoas estão no limite, permanentemente no limite de si mesmas.
No bar, a filosofia e a risada, o brinde da cerveja: somos todos reiteráveis!
Ali, era enfim a sensação de um tempo parado, suspenso.
E uma boa sensação de gravidade lhe tomava os gestos ressaqueados de uma espécie de renascimento. Ou de deslocamento definitivo, permanente, inelutável.
Era preciso que a "verdade" saísse da retórica e se transformasse em inquietação permanente, uma breve utopia, um brilho nos olhos. A ideia do sublime não basta, com ela chegamos só ao simulacro.
Naqueles tempo tolerantes, como quem, prosaicamente, apeas perde um privilégio, o da liberdade. Por uma sucessão inextricável de acasos...
Dá meia-volta, pega outra rua, e outra, mas todas não levam a lugar nenhum.
Relaxe; o tempo está escorrendo.
Ponha o pé num avião, ele concluiu - e desaparecemos.
E desapareceu por onde veio.
Vire-se. É a sua vez de jogar.
E avança no livro como quem escapa do mundo por um túnel secreto.
Como quem desaba, não como quem acorda. Para fugir do terrível acaso que nos define.
É por si só mais um passo demonstrativo da vida em direção à profunda indiferença de todas as coisas. Essa algaravia monumental em toda parte, todos falando tudo a todo instante, esse horror coletivo ao silêncio.
Todas as pessoas estão no limite, permanentemente no limite de si mesmas.
No bar, a filosofia e a risada, o brinde da cerveja: somos todos reiteráveis!
Ali, era enfim a sensação de um tempo parado, suspenso.
E uma boa sensação de gravidade lhe tomava os gestos ressaqueados de uma espécie de renascimento. Ou de deslocamento definitivo, permanente, inelutável.
Era preciso que a "verdade" saísse da retórica e se transformasse em inquietação permanente, uma breve utopia, um brilho nos olhos. A ideia do sublime não basta, com ela chegamos só ao simulacro.
Naqueles tempo tolerantes, como quem, prosaicamente, apeas perde um privilégio, o da liberdade. Por uma sucessão inextricável de acasos...
Dá meia-volta, pega outra rua, e outra, mas todas não levam a lugar nenhum.
Relaxe; o tempo está escorrendo.
Ponha o pé num avião, ele concluiu - e desaparecemos.
E desapareceu por onde veio.
Vire-se. É a sua vez de jogar.
quinta-feira, 8 de abril de 2010
Quanto a um conto,
A Princesa Hindu
"Me pega", a menina de súbito dizia, tentando surpreender o companheiro, e pulava do alto da escada que um pau mantinha erguida sob a supervisão do menino. Este, fingindo-se tomado pelo susto, de pronto agarrava-a ainda no ar, logo que ela se deixasse desprender do último degrau, e rindo colocava-a no chão. E assim podiam passar horas e horas do dia, entretendo-se com o que tinham. Era pouco ou quase nada. Filhos da terra, não possuíam brinquedos, somente tinham a imaginação e a companhia um do outro.
Criaram-se juntos, filhos de pais compadres, vizinhos na roça. Ela era a mentora das brincadeiras, estava sempre certa, mandava e desmandava. O menino obedecia, era seu cúmplice fiel e zeloso a acompanhava aonde fosse. "Eu sou a princesa e você é meu servo", ela dizia. Juntos criaram um reino hindu, onde os cavalos viravam elefantes, os casebres viravam palácios e o riacho era, na verdade, lágrimas vertidas de uma deusa virgem. Nesse reino nada faltava.
No entanto, a realidade era outra. Era tempo de seca e a comida já começava a rarear. As duas crianças, sob o sol forte, eram agora exploradores do deserto. A menina, empunhando uma sombrinha, dizia ser a chefe da missão. "Mas você já é a princesa", o menino protestou. "Por isso mesmo", ela retrucava e continuava com a cena, "agora eu digo que temos que subir aquelas dunas, pode ser que encontremos água". Subiu a escada, com sombrinha e tudo. O menino tentava acompanhá-la com o olhar, seu estômago doía raso e, ao olhar em direção a ela, o sol ofuscava-lhe a visão. Os olhos ardiam como se queimassem. "Me pega", ela disse, e confiante no companheiro pulou.
Caída no chão, imóvel e inconsciente, a menina ainda respirava. Quanto a ele, a cor fugiu da face, o coração subiu à boca, não ousava respirar. Correu, em pânico, buscando por ajuda. Atravessou o riacho das lágrimas vertidas, montou no seu elefante, buscou socorro no palácio. Mas todos estavam na roça e não ouviram as suas súplicas. Enquanto isso, a princesa hindu já ia ao encontro dos seus. Foi para o seu reino hindu, onde sua tribo a esperava. Lá onde agora somente uma coisa faltava: a companhia do seu fiel servo.
Thatiane C. Pires
domingo, 28 de março de 2010
Quanto a um conto,
Entre súplicas mal disfarçadas, ela aguardava a sua vez desejando, porém, que nunca chegasse. Se lhe perguntassem o que ela estava esperando, diria: a morte. E falaria isso com ares de veterana, cujo corpo já sentira outras duas vezes o fim da vida e que, sem escrúpulos, ousava continuar vivendo. Desta vez, no entanto, seus olhos traíram-na. Seus antigos cúmplices agora revelavam medo, reflexo do que ela no íntimo sentia. Um sentimento de impotência diante da situação que vivia.
A sala de espera ainda era a mesma e a garota se via sentada no mesmo estofado de mau gosto azul marinho com flores amarelas. Na porta do estabelecimento não havia qualquer identificação. Todas as que ali entravam o faziam sem anunciar, sequer encaravam as outras da sala ou levantavam os olhos. A música ambiente não bastava para dissimular o clima tenso e mal disfarçava os gemidos e às vezes gritos vindos lá de dentro.
Era a terceira vez que a garota recorria aos serviços da Vó Lélia, dona do lugar. O primeiro aborto, aos 12 anos, fora um procedimento tranquilo, incomum para a idade, o que de certa forma a deixou confiante, a ponto de não hesitar ao tirar a segunda gravidez, aos 15 anos. Não podia ignorar, porém, o quanto a morte pesava dentro de si e como o tempo morria em sua vida. Seus 17 anos tinham agora cheiro de 30, de tão repletos que estavam de problemas.
"Você", Vó Lélia disse apontando a garota. Entraram no outro cômodo, aquele de onde os gemidos vinham. A senhora reconheceu a pequena. "Faz o que... dois anos?", Vó Lélia perguntou e a garota fez que sim. Depois, com má vontade, a velha indagou se era necessário repetir as instruções quanto ao procedimento. "Por favor", disse a garota nervosa, instruções nunca eram demais, aprendera isso da pior maneira. "Fique tranquila, não há nada novo para você", a mais velha acrescentou ao ver a já rara cor sumir por completo da face da coitada.
Por que estava fazendo isso? Procurou argumentos, mas nenhum lhe pareceu suficiente no momento. Iam começar a intervenção, a menina pôs-se a gritar. E podia jurar que junto ao seu grito de medo e de dor berrava o seu ventre. Viu-se incapaz de tomar qualquer decisão, um sentimento já bem conhecido por ela: a mesma impotência que a impedia de mandar na própria vida. Desistiu. Ainda era tempo, seu ventre estava intacto. Pela primeira vez, iria sentir a vida. Iria nascer do próprio parto.
Thatiane C. Pires
sábado, 13 de março de 2010
Quanto ao sentimento,
"[...] Mas sentimentos são a água de um instante. [...]"
Clarice Lispector, em A Legião Estrangeira
Clarice Lispector, em A Legião Estrangeira
Quanto a um conto,
O Violoncelo
Era uma vez um violoncelo capaz de encantar aos ouvidos mais refinados e de despertar amores tão profundos a ponto de adoecerem aqueles não correspondidos. O tempo só havia aprimorado seu som doce, porém brilhante, e, ainda que as viagens e as mudanças houvessem provocado alguns arranhões, o campo harmônico de espruce, combinado ao salgueiro internamente e o bordo ao fundo e no braço, formava uma robusta e inexorável caixa acústica.
O instrumento estava na família Bettoni há quatro gerações. Havia resistido à imigração da família italiana de Mantova para Santa Catarina, em 1878, para a alegria dos descendentes Bettoni - entre eles, Giacomo, filho de Giovanni e Antonia. Sendo o único homem de uma prole de seis, o caçula herdara o violoncelo e, conforme a tradição da família, aprendera com o pai a manipular o instrumento que, em parte, era responsável pela configuração genealógica da família, sendo determinante na união matrimonial dos diversos "nonnos" e "nonnas".
Era uma tarde de domingo, o tio solteiro Giacomo estava sentado na sala do casarão da família, os sobrinhos a seus pés brincavam e desenhavam, quando a carta anônima chegou. Era oferecida uma enorme quantia pelo estimado violoncelo da família, o que o deixara intrigado. Tentado pelo valor em moedas citado, mesmo sem intenção de venda, a curiosidade fez com que escrevesse para o anônimo, convidando-o a avaliar o violoncelo assim que lhe fosse possível.
No dia seguinte, logo pela manhã fez-se a visita. Maior ainda foi o espanto de Giacomo ao averiguar que o anônimo era, na verdade, uma compradora. A mulher solteira se apresentou como Beatrice Vitti, devia ter 25 anos e parecia de uma tristeza intrínseca, daquelas que configuram um encanto próprio a quem a possui. O caçula Bettoni, surpreso com a inabilidade da moça ao segurar o violoncelo, encheu a pobre de perguntas sobre a finalidade de tal aquisição. "Vou destrui-lo", disse amargurada.
"Este instrumento matou minha mãe de tristeza e arruinou minha vida antes mesmo de eu nascer. Sou fruto de um casamento sem amor que levou minha mãe Catterina Rivellini ao suicídio. Postumamente, encontrei seus escritos que aludiam a Giovanni Bettoni, teu pai, e ao violoncelo encantado, aos quais minha mãe fora amante profunda e fiel. Iludida e não-correspondida, Catterina se ausentou ainda em vida - e eu só conheci sua ausência."
Atordoado com o emocionado testemunho, Giacomo começa a tocar, com uma compaixão determinada, uma das suites de Bach para violoncelo, e a filha renegada de pronto se encanta com tão virtuoso som. Era o consolo que sempre procurara e pelo qual ansiava todos os dias. Giacomo e Beatrice fitavam-se ardentemente com os olhos e, como nunca, desejavam alguém. Pela primeira vez Beatrice compreendeu sua mãe. Estava selada a configuração futura de mais uma geração Bettoni.
Thatiane C. Pires
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